terça-feira, 11 de novembro de 2008

RETRATO DA CRISE MUNDIAL


Enviado por katsuhiro nakamura

*Por Luis Nassif

Caleidoscópio da crise. Do céu ao inferno


No setor privado, há consenso sobre dois fatos: setembro registrou um dos melhores desempenhos da história; outubro registrará uma das maiores queda. Ninguém foi poupado, da indústria de alimentos à indústria de base.

Crédito 1
O crédito internacional continua seco como o coração de um cabeção de planilha. O Banco do Brasil precisou emprestar R$ 4 bi às montadoras porque seus bancos - veja bem, banco de multinacionais - não conseguiam mais funding externo.

Crédito - 2
Não há como o setor automobilístico escapar inteiro dessa crise. Antes se tomava financiamento até a 72 meses, a taxas de 0,5% ao mês. O crédito que vier agora será no máximo em 36 meses, com 20% de entrada e juros substancialmente maiores. Imagine um carro de R$ 30 mil. Antes, com prazo de 72 meses, sem entrada, juros de 0,4% ao mês, a prestação saía por R$ 480,00. Agora, com entrada de 20%, juros de 1,2% ao mês e prazo de 36 meses, sairá por uma entrada de R$ 6 mil e uma prestação de R$ 825,00. Leve isso para todas as faixas de preços e se terá uma pequena idéia da pancada.

A Câmara da Crise
Desde o começo da crise alertei, aqui, para a necessidade de uma Câmara da Crise, que juntasse todos os órgãos do governo e do seto9r privado, permitindo o monitoramento da crise e a agilização dos procedimentos burocráticos. Isso porque não adiantava apenas estar na direção correta, mas ter a velocidade correta. Cada dia mais de demora, significa projetos a mais sendo suspendidos e influindo, em processo de cascata, sobre outros projetos. Nada isso ocorreu. O que acontece é que o crédito continua sem chegar na ponta não só do exportador mas do setor agrícola. Tem que sair correndo atrás do prejuízo porque a partir de janeiro o fogo começa a alastrar e aí não haverá cabeça fria para planejar ações.

Preços globais
Uma pequena amostra dos efeitos da crise global sobre investimentos. No setor de compressores, filiais de multinacionais alemãs adquirem da matriz até 80% das suas necessidades. E continuarão assim mesmo com o real desvalorizado. As máquinas alemãs respondem por exportações da ordem de US$ 140 bilhões. Para manter essa vitalidade, a indústria pesada alemã trabalha com margens de 3 a 5% de lucro sobre o faturamento e de 10% sobre o patrimônio líquido. Para ampliar investimentos, necessitará de funding no mínimo igual ou inferior a essa margem. E esse dinheiro, já não mais há.

Construção civil
Nos últimos dias o setor começou uma queima de estoques sem precedentes. Não evitará que muitas empresas comecem a entrar em dificuldades.

Redução dos investimentos
Três fatores não permitem apostar muito no investimento privado no próximo ano. O primeiro, a redução das projeções de crescimento que obriga a revisar todos os planos, inclusive daqueles que apostavam nos gargalos da infra-estrutura. A segunda, é precaução em se manter líquido. A terceira, é que muitas empresas líquidas, do setor financeiro e real, interromperam seus investimentos à espera da temporada de caça. A lógica é que, com a crise, haverá muito concorrente dando sopa a preços de liquidação.

Crise fiscal
No começo do ano baterá mais forte o aperto fiscal de estados e municípios. Será mais um fator forte de curto-circuito político.

*Luis Nassif é um jornalista brasileiro . Foi colunista e membro do conselho editorial da Folha de S. Paulo, escrevendo por muitos anos sobre economia neste jornal. Nas composições que faz dos possíveis cenários econômicos, não deixa de analisar áreas correlatas que também são relevantes na economia, como o sistema de Ciência & Tecnologia.

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